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Arrancava nacos de carne do colega com os próprios dentes. Já não havia gás no fogareiro para tostá-lo como bife. Mastigava a pele crua, borrachuda e sorvia o sangue que escorria pelos ferimentos abertos. Comer, beber. Era só o que importava para continuar vivo. Ele não reconhecia o menino à sua frente mais do que reconheceria uma galinha viva pela sua coxa assada.

Sentiu-se forte. Estava alimentado. Poderia, até… sim, ele era capaz. De se levantar. Pingava sangue da sua roupa, dos seus dedos, da sua boca. Ele se levantou. E, sentindo-se forte e seguro como um trator, não hesitou em colocar o primeiro pé, cambaleante, no degrau da escada e, escorando-se no corrimão, descê-los um a um, um a um.

Os zumbis que ele vira da janela não passavam de esqueletos caminhando. Muitos deles caíam desmontados no chão tão logo suas articulações se rompiam. O chefe agarrou a maçaneta da porta da sala. Sairia daquela casa – ele, o sobrevivente. E continuaria vivo, agora nada nem ninguém o impediria.

*

Os zumbis olharam o menino esquálido que aparecia. Dezenas de crânios sujos voltaram-se para ele. Mas nenhum deles avançou. O chefe começou a andar, a passos fracos, em meio aos mortos estáticos. Que depressa começaram a se mover, não na direção dele, mas na direção do acaso apático que os aguardava, cada um buscando em círculos alguma coisa que nunca alcançaria: o fim da fome. O chefe passava pelos corpos decompostos alheio a eles, sem medo. Ele sabia qual rumo deveria tomar. Ele sabia que deveria andar em direção à alegria, à vida, à sobrevivência. E que para isso, antes, precisaria achar comida. Comida, é só disso que precisamos.

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